quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
O vento acarinha quem Sonha
Incongruente transferência de ventos
que me ardem
em cima de cidades devoradas pelo alcatrão
onde só me encontro eu, no meu mais fraterno embalo
perante o cume mais frondoso dos abetos
longe de tudo o que não me é
a devorar a coragem para encontrar o meu perdão
de todas as fatalidades em mim
Permito-me contrair os músculos
que são fortes e afiados
e em nenhum caminho me apresento aos muros
Pois no meu peito desfibram vontades
E no abeto, bem no alto, o vento acarinha quem sonha.
Escorrer
Os líquens agarram-se aos meus pés descalços, húmidos e entregues
e o silêncio do andar terreno é o sentido que canta.
Que escorram sonhadores os gestos que ouso desejar
Que a noite invada as pupilas dos olhos que anseiam o que está para além
Que esta terra me engula e me renasça com calor
Um tambor na água como se fosse o meu coração
guia-me em ascendência trocando os meus ouvidos por dedos
e os meus olhos por bocas
Pois também eu canto, em silêncio
Canto e danço
E escorrem quentes os lagos a vapor.
domingo, 14 de dezembro de 2014
Memória
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
As flores azuis que cintilam sob um lago
comovem as minhas lágrimas de solidão
não existe jamais o perdão
e tudo desapareceu sem paixão
Aviso-te do sentido da minha alma
ela queima debaixo da minha pele
e alucina com o seu perfume
Tudo é estrondoso quando o meu corpo
se move para orar à lua
e tudo se transfigura
quando os meus cabelos mergulham no céu.
sábado, 15 de novembro de 2014
Clarão
O sono envenenado de clarões
num corpo entregue mas esquecido
prolonga a embriaguez de se sonhar.
Não contaminarei a minha presença
com o meu movimento
tudo é demasiado eterno
para ser perseguido
e raras são as vezes em que me deixo ao relento
Nos meus membros congelados
Um relâmpago salpicou o céu ao cair na noite.
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
O sono que sacode as minhas pálpebras
em colisão com fraternos anseios
aparenta negras testemunhas
que se estendem quando o vento roça
no meu coração que pulsa.
Desafio-te, corpo
a derreteres a tua carne na lama
a arrasares as fogueiras da morte
a desistires de pertencer à tua pele
Hoje é só mais uma névoa
de rastilhos evaporados
e tremo ao extinguir qualquer outro
impulso em mim
senão o arder como uma árvore
e tornar as minhas raízes uma memória.
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
O Verão e o Deserto
Rasura o pensamento
atormentado
sabes que albergo facas
por debaixo da minha almofada
Caminho invertida
sendo de dia e mesmo de noite
quando espreito em fé
dando-me um golpe de misericórdia
Um colossal fragmento
que devora a cabeça dos mortos
cheios de tinta entornada
em papiros do deserto
Não largarei a minha casa
enquanto não for verão.
sábado, 11 de outubro de 2014
Sinopse
Corpos visionários
Infeccionados de espírito
Dir-me-ão que por vezes os destinos são longos
Mas outrora
No tempo em que a noite
Não se sobrepunha à manhã
Eu preservaria o sangue
Que um dia projectei nos nossos retratos.
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Auroras, Ramos e Eclipses
Painting by Beatriz Martin Vidal
Auroras obcecadas pelos ramos de árvores
Que deslizam pelas minhas mãos
Enquanto
Peitos estridentes com fugas proibidas
Acompanham-me em declínio
Já ouviste falar de ranhuras por onde escapam as estrelas?
Um dia o mundo tornar-se-á eclipses da nossa vida.
Auroras obcecadas pelos ramos de árvores
Que deslizam pelas minhas mãos
Enquanto
Peitos estridentes com fugas proibidas
Acompanham-me em declínio
Já ouviste falar de ranhuras por onde escapam as estrelas?
Um dia o mundo tornar-se-á eclipses da nossa vida.
domingo, 14 de setembro de 2014
Barco
O espectro de um barco
que preso se lamenta
enquanto por baixo as ondas o beijam em desatino,
agitando-se contra as rochas
por debaixo dos meus pés.
Estou aqui para não estar.
Vanglorio uma solidão
exaltada por tremores de vida
caindo em mim como que me afogando
em brasas, em pó, e em remotas purezas
enquanto a chuva se descasca,
de faces voltadas para o barco.
Por onde o meu sangue não abre caminho
O tempo foi perdido
Abandonando granadas no meu peito.
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
Hóspede
Um transpirar
É um desconhecer das Ruas
Não me provoquem
Com um torpor de mãos vazias
Nos recantos dos precipícios
Onde ostento a minha presença com a força do vento.
Aqui,
E em todo o lado
Albergo hóspedes em mim
Expelindo-me para grutas cheias de Mar.
E por isso te digo:
Acolhe a luz vermelha da minha casa.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Colagens
Se compreendesses as roturas por onde sai a luz,
Saberias que há várias formas de encruzilhar sílabas,
E hoje um estranho decidiria o meu destino.
Será que nestes compassos,
Que se arrastam contaminando o ambiente,
Saberei arrasar a memória do tempo?
Ela caminhava com corvos debaixo da saia,
E uma romã no peito.
Debruçavam-se sobre os seus lábios antigas cantigas em vibrações trágicas,
E molhados os trevos a espreitavam,
Enquanto espasmos a atiravam para uma ausência.
E se eu projectasse a minha imagem
Nos contornos instintivos da paixão
Haveria a minha embriaguez levantar voo e adormecer-me?
As respostas da coragem
Escondem-se num leito de neve,
Com uma suavidade provocatória
E o meu corpo de luz arde
Em contacto com a minha morte
Mas, estou aqui também
A furtar pela janela,
E saberias que há várias formas de encruzilhar sílabas,
E hoje eu decidiria o meu destino.
sábado, 6 de setembro de 2014
Caminhante
É quando é de noite que as ruas se tornam minhas
Quando não há destino nem saudade
Avanço e recebo
Escutando os passos hesitantes na terra molhada
e a solidão destapada
Não tenho acesso à visão
E o que me rodeia poderiam ser flocos de neve
Pois os caminhos são para serem percorridos
Mas longe está quem um dia acreditou no sol.
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
13
Sombras persecutórias das portas
Em uma casa antiga, banhada em areia
Onde fogos são ateados por mãos vendadas
E olhares desfalecidos, relembram
Um revirar de bocas
E um foco, nesta madrugada.
Em uma casa antiga, banhada em areia
Onde fogos são ateados por mãos vendadas
E olhares desfalecidos, relembram
Um revirar de bocas
E um foco, nesta madrugada.
domingo, 31 de agosto de 2014
Lua
A Lua é o centro e eu o espaço.
A retalhação da gravidade desconhecendo o amor que arde.
A Lua é o centro e nós o espaço.
Irrompem aladas formigas não se entusiasmando com as minhas costas,
e as bocas abertas invertidas e cegas.
A Lua é o centro e tu o medo.
Farpas alojadas nos meus olhos que expulso
Pescoços que rangem em vislumbres
A Lua é o centro e cá em baixo há um comboio.
Burburinhos que escavam em terra inexistente
na violenta vertigem com desonra nos sentidos
e cabelos na boca.
O comboio arde no fundo dos meus pés
Pois o centro é a Lua mas a Lua não existe.
Não há cidades ou marés que esperem um fantasma
Não há nada em concreto que nos albergue em vácuo
E não há tenacidade nas despedidas
Declaro um desabar em ti
Cheio de sonhos e confissões
E o centro somos nós,
e a Lua a ser lavrada de vontades.
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
quinta-feira, 31 de julho de 2014
O Mar
Espanta-me a estranheza
Em toques no meu corpo
E em volúveis ondas na minha espinha
Um fim, louco e longe
De olhos fechados
Ergo o meu pescoço na terra
com a cabeça nos meus quadris
Não há nenhum destino eterno
Onde os tempos se encontram
Permaneço no mar
E procuro uma maneira de sobreviver ao sono.
quinta-feira, 24 de julho de 2014
Frequência
Transfiguro as perspectivas da minha pele
Enquanto o centro arde
de boca aberta ao vento
Mudei de personagem
As estrelas deixam-nos cegos
e no encontro
Extermino qualquer barulho em mim por medo de me encontrar
Afirmo a contenção dos mares,
Afirmo qualquer coisa indisponível.
segunda-feira, 21 de julho de 2014
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Valsa
Olho, vagarosamente em torno da minha sombra
Estremeço ao sentir os meus pés
Tudo o que se fecha dentro de mim rasga-se para dentro
Em convulsões silenciosas
Cascatas de acarinhada tristeza, sorrio, tão só em mim
Sorrio como se fosse pela primeira vez
E olho-te vagarosamente
Pêndulos nocturnos oscilantes de incertezas
Só te queria raptar para bem longe daqui e deitar-me contigo
Morrer por instantes ao teu lado
Olhar-te num universo
Mergulhada e afogada em ti.
Mostrar-te e descobrir-te
Queimar-te e elevar-te
Até nada mais existir
Senão alguém ou ninguém
De peitos rasgados fora do corpo.
Raia Espectral
A vida como uma memória
Uma memória das pessoas que somos
A mistura das pessoas que nos são
Tão difícil é a construção do nosso corpo
Espelhos invasores
Perseguem o meu caminho
Reflexos nossos ardem
Tão ténue é a teia de passagem
Como uma droga, envolvente
Estou perto, tão perto
Em crisálida
O meu corpo em vertigem
Por breves momentos deixei de estar aqui.
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