domingo, 31 de agosto de 2014

Lua



A Lua é o centro e eu o espaço.
A retalhação da gravidade desconhecendo o amor que arde.

A Lua é o centro e nós o espaço.
Irrompem aladas formigas não se entusiasmando com as minhas costas,
e as bocas abertas invertidas e cegas.

A Lua é o centro e tu o medo.
Farpas alojadas nos meus olhos que expulso
Pescoços que rangem em vislumbres

A Lua é o centro e cá em baixo há um comboio.
Burburinhos que escavam em terra inexistente
na violenta vertigem com desonra nos sentidos
e cabelos na boca.
O comboio arde no fundo dos meus pés
Pois o centro é a Lua mas a Lua não existe.

Não há cidades ou marés que esperem um fantasma
Não há nada em concreto que nos albergue em vácuo
E não há tenacidade nas despedidas

Declaro um desabar em ti
Cheio de sonhos e confissões
E o centro somos nós,
e a Lua a ser lavrada de vontades.




1 comentário:

  1. Diria que somos mais filhos e filhas da Lua, do que da Terra.
    Talvez venha daí o seu apelo, a sua sensualidade,
    Esse corpo celeste que é amante e companheira.
    Como a lua, estamos presos a um ciclo que não podemos mudar.
    Como a lua, temos dois lados, um visível, o outro... Privado, desconhecido.
    E como a lua, temos uma vista gloriosa de toda a criação,
    Mas estranhamente sentimo-nos afastados disso tudo,
    Como formigas a olhar para uma árvore sem ver a floresta.
    A nossa luz é visivel para todos aqueles que querem ver, no momento certo.
    E nessa luz reside o nosso amor, a nossa compaixão, a nossa esperança, o nosso medo, a nossa ganância, a nossa raiva,
    Essencialmente, a tinta com que pintamos o retrato das nossas vidas.
    A nossa escuridão no entanto, é outra coisa.
    Não a partilhamos, porque não há amor suficiente no mundo para a conter.
    Negamo-la, aceitamo-la, tememo-la, amamos-la... Cada caso é único.
    Invisivel para a maioria, visivel apenas em raras excepções.
    De certa maneira somos estéreis como a lua.
    E talvez venha daí a nossa fome insaciável...
    O nosso desejo por mais, sempre mais.
    Podemos amar e ser amados, mas esse amor nunca é suficiente... Queremos mais!
    Podemos estar rodeados de amigos, mas também isso nunca é suficiente... Queremos mais!
    Podiamos ter todo o dinheiro do mundo, mas nunca seria o suficiente.
    Contentamo-nos com menos para negar a nossa fome.
    Mesmo em algo tão simples como o amor vemos isso.
    Por isso mesmo vivemo-lo em fases, para não terminar logo que comece,
    Para que não seja devorado pela multitude dos nossos desejos.
    No fim somos todos luas, e o vácuo é a nossa gana.
    Luas que sonham tornarem-se planetas,
    Despojar-nos desta inanição e transformá-la em vida.
    Libertarmo-nos do nada com que nascemos, e tornarmo-nos algo.

    -RS-

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