terça-feira, 23 de abril de 2019

XX






Desaba-me o vazio
Sim, isso, pálida carne
Efervescente
Na última vez que assisti ao teu rosto
Esse que me vive internado
No meu frágil lembrar.

E a minha queda acentua
E o contrário perpétua
Eu decido o que me trespassa
E na surpresa, a ausência.

Eu sou a Noite e tu o Sol
Bebemos a energia viva das conspirações
As promessas que fervem na nossa pele
Eu sou a Noite e tu o Sol
O sentido liberto e imaculado
num calor familiar latente
por cima e em baixo
entregue e descoberto.

Na nossa corrida à continuação do mundo
escondemos a imortalidade
E eu serei a noite onde te deitas a queimar.





quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

9 da Manhã




No fundo, extasiado em mim
Uma invasão afiada
Num luto maternal
Uterino
Com sono do mundo.




terça-feira, 17 de abril de 2018




A experiência do rosto, das marés
Os meus lábios entreabertos, escapados
Sonâmbulos
A experiência das minhas mãos
Com os seus nódulos e contrastes
Em ondulações desentendidas
A noite e a sua saudade
De tornar o Céu um ser nocturno em cópula
E eu nua no seu calor.





quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Sinergia









Os seus negros contornos e enredos
faiscantes de plenos segredos
As minhas mãos quentes e leitosas
nos seus lábios vulneraveis de dor

Um querer entregue de nos sermos entre nós
Um esvaziar no tempo colado, arranhado, sugado
Eu conheço o que existe mas não persiste
Eu com o meu peso no céu e um desnível

Pretendes-me crer e crer eu posso
Rugir o meu fogo pelo véu do Universo
Tocar a ponta do teu nariz
com o céu encoberto

Eu possuo o delinear do material
a potência do invisível
um foco drástico no centro de ti, de nós
Remexe-me esta energia que expande
que se implora, que me invade ao silêncio ruidoso
da alteração dos corpos

Uma forma alheia, sucinta
irreconhecível vã de enlace
Evapora-se longe, em torno das estrelas
O meu peito freneticamente perfurado
encontra-se a sangrar com o teu.













sexta-feira, 4 de agosto de 2017

3




Outrora estive encantada

Os meus olhos expandiam e a minha cabeça encontrava-se atrás

Tudo me percorre mais fervorosamente quando não sou eu

Eu corrompo o meu êxtase

e por isso me escondo

Mas nada é como digo e por isso recriarei

Encontro-me a pulsar sem sentido

e com motivo, procuro-me também.







domingo, 26 de março de 2017

Mortalidade




Não, não compreendo a cadência,
a vivência, a eloquência,
Os acasos que a vida compromete
mas compreendo a intenção do meu corpo
em contacto com a tua mão.

Quero conduzir-me embriagada
de noite, luminosa
numa súplica de redenção
Tenho para oferecer todo o amor quebrado
as minhas vísceras, o meu centro,
os meus olhos dilatados e rasgados, vidrados,
procuro-te para olhar.

A loucura protege-me e eu desencontro-me
Com o medo construo casas despidas
onde o frio consome o rosto dos sonhadores.






quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Delírio




Não pertences onde me encontro
nem os desejos soletram a palavra
um delírio, resumindo
em contornos escuros

Assim o senti e não mais sentirei
Um fogo na noite aberto ao céu
uma criança com olhos a brilhar
a impossibilidade da morte

Estarei só, estarei leve
presa numa cidade incompleta.